O primeiro vídeo do governador eleito de Rondônia após o segundo turno é um bom exemplo de uma técnica antiga da comunicação: falar com públicos diferentes na mesma mensagem.
O vídeo
Na segunda-feira, 26 de outubro, um dia depois do segundo turno presidencial, o governador eleito Marcos Rogério (PL) publicou um vídeo para os rondonienses. Disse compreender o que muitos eleitores sentiam naquele momento: “raiva, indignação e medo do futuro”. Falou com o agronegócio, reconheceu as preocupações de quem produz e reafirmou que o estado vai seguir em frente a partir de janeiro.
O vídeo trata do resultado nacional sem citar nomes. O presidente reeleito e o governo federal não são mencionados. Rondônia é o centro da mensagem.
O contexto ajuda a entender a escolha. Flávio Bolsonaro teve 69,61% dos votos válidos no estado e venceu nas 52 cidades. Poucos governadores eleitos do país têm um eleitorado tão concentrado de um lado só.
Duas plateias
Todo governador eleito fala, no mínimo, para dois públicos. O eleitor que o escolheu e as instituições com quem vai governar. Em Rondônia, neste momento, esses dois públicos estão em lugares diferentes. Parte do eleitorado vive a frustração com o resultado nacional. Ao mesmo tempo, o estado depende de convênios, obras e repasses federais, num primeiro ano que a imprensa local descreve como de orçamento apertado.
Em comunicação, existe um nome para a mensagem que atende os dois. O pesquisador americano Eric Eisenberg chamou de ambiguidade estratégica, num artigo de 1984. Ele mostrou que, em certos momentos, uma fala aberta é mais eficaz do que uma fala fechada, porque permite que públicos diferentes se reconheçam nela e preserva espaço para o que vem depois.
Para Eisenberg, isso não é defeito. É um recurso legítimo e muito usado por líderes de empresas, de instituições e de governos, justamente quando o cenário ainda está se formando.
Como a técnica aparece no vídeo
Três escolhas sustentam a mensagem. A primeira é o acolhimento: antes de qualquer proposta, o governador eleito nomeia o sentimento do eleitor. Quem se sente compreendido escuta o resto com mais atenção.
A segunda é o foco local. O vídeo troca o debate nacional pelo que está ao alcance do governo estadual: produção, trabalho, o mandato que começa em janeiro.
A terceira é a ausência de nomes. Ao não mencionar o presidente nem o governo federal, a mensagem não acirra a frustração de quem perdeu e também não cria obstáculo para a relação institucional que virá.
O resultado aparece na recepção. O colunista Carlos Sperança, do Rondoniaovivo, leu o vídeo como sinal de uma relação republicana com o governo federal. É uma das leituras possíveis. E permitir mais de uma leitura é exatamente a função da técnica.
O que vem depois
A ambiguidade estratégica costuma ser uma ferramenta de transição. Funciona melhor nos momentos em que ninguém precisa decidir nada, e tende a dar lugar a mensagens mais específicas quando o mandato começa.
A posse, as primeiras agendas e as primeiras negociações com Brasília vão pedir falas mais definidas, como acontece com qualquer governante. A forma como cada um faz essa passagem, do aberto para o específico, costuma dizer muito sobre seu estilo de comunicação.
Para quem acompanha comunicação política, é a próxima cena a observar. Não só em Rondônia: em todo estado onde o eleitor escolheu um lado e o país escolheu outro, os governadores eleitos vão enfrentar o mesmo desafio de falar com as duas plateias.
Essa análise também virou vídeo. Em 45 segundos, explico o conceito de ambiguidade estratégica a partir do vídeo do governador eleito. Assista no Instagram e deixe sua leitura nos comentários.
COLUNA DA HORA

Jornalista e Redator Publicitário.
DRT – 2057/RO