COLUNA DA HORA, JORNALISTA JOACIL BRAGA – Quem perde também discursa.

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Em dez dias, Flávio Bolsonaro teve três posições sobre o resultado da eleição. Cada uma mandou um recado diferente para o mesmo eleitor.

Três versões em dez dias

No dia 16 de outubro, na TV Globo, Flávio Bolsonaro prometeu à jornalista Renata Lo Prete: “Independentemente de qual for o resultado, vou respeitar”. Nove dias depois, perdeu por mais de 4 milhões de votos e disse que era impossível reconhecer o resultado. Ia pedir a anulação da eleição.

Na segunda-feira, trocou a anulação por um pedido de cassação da chapa de Lula. Resumiu tudo numa frase: “Não fui eu que perdi, foi o sistema que ganhou”. No mesmo dia, o PL publicou nota, assinada por Valdemar Costa Neto, reconhecendo o resultado.

Três posições em dez dias. O PL indo para um lado enquanto o candidato ia para outro. E uma foto.

Quem ficou fora da foto

Na noite de domingo, Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes estavam em Brasília para acompanhar a apuração ao lado de Flávio. Quando ele foi falar à imprensa, os dois não aparecem na imagem. Ninguém explicou o motivo.

Em política, a fotografia é um documento. Quem decide estar dentro dela assina um compromisso. Quem fica de fora também está dizendo alguma coisa, mesmo calado.

Para que serve o discurso de quem perde

O discurso de derrota é um dos gêneros mais antigos da democracia. Tem uma função prática: dizer ao eleitor derrotado o que fazer na segunda-feira. Voltar para casa, ir para a rua, esperar a próxima eleição, confiar ou desconfiar.

Quem perde com quase 60 milhões de votos carrega o humor de quase 60 milhões de pessoas. O que ele diz na primeira hora orienta esse humor por meses.

Por isso a confusão pesa. O eleitor de Flávio ouviu, em sequência, que o resultado seria respeitado, que a eleição seria anulada, que a chapa adversária seria cassada e que o partido aceitava a derrota. Cada mensagem pede uma atitude diferente. Juntas, não pedem nenhuma.

Uma queixa séria, um número pequeno

Existe uma queixa legítima no meio disso. A decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, de estender a votação até as 19h foi comunicada depois do horário de encerramento e pegou a própria Justiça Eleitoral de surpresa. No balanço da apuração, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, foi direto: “Prorrogar uma eleição é possível, mas tem que ser pensado e estruturado”.

É uma crítica feita por quem organiza a eleição. Merece debate, e merece regra clara antes de 2028.

Só que o tamanho do fato importa. Segundo o TSE, 34,3 mil votos foram registrados depois das 17h, cerca de 0,03% do total. A diferença entre os candidatos passou de 4 milhões. Fazer desse número a explicação de uma derrota é uma escolha de narrativa, e narrativa que não fecha com a conta costuma durar pouco fora da própria bolha.

O Flávio de 2022

Há uma comparação inevitável. Em 2022, coordenador da campanha do pai, Flávio foi o primeiro da família a se manifestar depois da derrota, e a imprensa registrou que ele reconheceu o resultado nas redes. Jair Bolsonaro levou cerca de 42 horas para falar.

Quatro anos depois, o mesmo Flávio, agora candidato, fez o caminho inverso. O coordenador soube perder. O candidato, não.

Flávio sai desta eleição com a maior bancada da Câmara ao seu lado e quase 60 milhões de votos no bolso. É capital político para muitos anos. O primeiro discurso de quem perde costuma ser o primeiro discurso da próxima campanha. Este começou com três versões.

Essa análise também virou vídeo. Em 45 segundos, mostro os três recados que Flávio mandou em dez dias e quem ficou fora da foto. Assista no Instagram e deixe sua leitura nos comentários.

COLUNA DA HORA

Jornalista e Redator Publicitário.
DRT – 2057/RO

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