Criminosos usam anúncios falsos, perfis clonados e fotografias de vítimas para fabricar confiança e arrancar dinheiro de quem procura um carro mais barato
O golpe começa com uma oferta boa demais para ser verdade. Um carro bonito, aparentemente conservado, documentação em ordem e um preço muito abaixo da tabela. O interessado pergunta, o suposto proprietário responde rapidamente e a conversa parece normal. Até aqui, nada que desperte grandes suspeitas.
Mas, por trás da tela, pode estar funcionando uma operação criminosa.
O Facebook Marketplace, ferramenta criada para aproximar compradores e vendedores, transformou-se em um terreno fértil para criminosos que exploram justamente aquilo que deveria ser sinônimo de segurança: a confiança entre pessoas. Criar um perfil falso, publicar fotografias de veículos que não pertencem ao anunciante e esperar os interessados aparecerem virou parte de um roteiro criminoso recorrente em Rondônia. E o mais perverso é que o golpe não termina no primeiro contato.
O criminoso rouba até a identidade de quem você confia
Depois de conversar pelo Marketplace, o suposto vendedor geralmente inventa uma história para tirar a negociação da plataforma. Diz que mora em outra cidade, que está trabalhando, que o carro está com um conhecido ou que um amigo pode mostrar o veículo. É nesse momento que entra uma das etapas mais engenhosas da fraude. A vítima manda um amigo conferir o automóvel. O amigo entra em contato com o suposto vendedor. O criminoso deixa de responder e, aparentemente, a negociação morre. Só aparentemente.
O golpista já conseguiu o que queria: uma fotografia, um nome e uma identidade real para copiar.
Pouco depois, surge outro número no WhatsApp. A fotografia é a do amigo da vítima. O nome é o mesmo. Para quem está do outro lado da conversa, parece que o conhecido está confirmando pessoalmente a existência do carro. “Pode comprar. O carro existe. Está tudo certo.”
SÓ QUE NÃO
Era o criminoso falando com a fotografia de uma pessoa inocente. A partir daí, a vítima baixa a guarda. Afinal, não está mais confiando apenas em um desconhecido encontrado na internet. Acredita estar recebendo uma confirmação de alguém de sua confiança. É nesse instante que o golpe deixa de ser apenas uma mentira e passa a ser uma armadilha cuidadosamente construída.
O PIX É O DESFECHO FINAL
Depois da falsa confirmação, vêm os dados bancários, a suposta transferência de sinal ou o pagamento pela compra. O dinheiro sai. O vendedor desaparece. O WhatsApp fica sem resposta. O anúncio é apagado. O telefone não atende. E o carro simplesmente nunca existiu para aquela negociação.
Quem perde pode ter colocado ali o dinheiro economizado durante anos, o valor de uma rescisão, uma indenização, uma aposentadoria ou o resultado de uma longa economia familiar. Para o criminoso, é apenas mais uma vítima. Para quem caiu, pode ser a perda de uma vida inteira de esforço.
CADÊ O FILTRO DE SEGURANÇA DO MARKETPLACE?
É justamente nesse ponto que a discussão precisa chegar à plataforma. Não se trata de dizer que o Facebook pratica os golpes. Os criminosos são os responsáveis pelas fraudes. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita à Meta: quanto de segurança existe antes que um anúncio de um veículo de dezenas de milhares de reais seja colocado diante de milhares de consumidores?
Por que alguém pode simplesmente criar um perfil, publicar fotografias de um carro, estabelecer um preço muito abaixo do mercado e começar a receber potenciais compradores? Que comprovação existe de que aquele anunciante realmente possui o veículo? Que mecanismo impede a utilização sistemática de fotografias retiradas de outros anúncios? Como a plataforma identifica perfis recém-criados que passam a publicar dezenas de ofertas?
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E, principalmente, quantas vítimas precisam existir para que um anúncio seja considerado suspeito?
A própria Meta reconhece a existência de golpes envolvendo contas falsas, identidades fraudulentas e anúncios enganosos e afirma possuir mecanismos para combatê-los. Orientações de segurança da Meta sobre golpes
O problema é que, para quem perdeu dinheiro, saber que existem mecanismos de segurança depois que o golpe aconteceu serve de pouco consolo.
A FOTOGRAFIA DE MULHER TAMBÉM É USADA COMO FERRAMENTO NO GOPLE
Outro detalhe chama atenção nos relatos desse tipo de fraude: criminosos podem utilizar fotografias de mulheres em perfis falsos para construir uma aparência mais pessoal e confiável. A fotografia passa uma sensação de que existe uma pessoa real por trás daquele anúncio. Mas existe. Só não é a pessoa da fotografia. E esse é justamente o perigo. O criminoso não precisa mais construir uma identidade. Ele rouba uma pronta. A vítima vê rosto, nome, conversa, suposta indicação de amigo e anúncio do veículo. Tudo parece formar uma história coerente.
Só que cada peça foi montada pelo golpista.
O BARATO QUE PODE CUSTAR TUDO
O alerta mais importante continua sendo simples: carro muito abaixo da tabela não é oportunidade automática. Pode ser isca. A Receita Federal já alerta para golpes iniciados em redes sociais e orienta consumidores a desconfiar de ofertas e realizar verificações antes do pagamento. Orientações da Receita Federal sobre golpes em compras nas redes sociais
E existe uma regra que deveria estar colada na tela de qualquer pessoa procurando carro no Marketplace: fotografia não prova propriedade. Perfil não prova identidade. Conversa não prova existência do veículo. E indicação pelo WhatsApp não garante absolutamente nada.
Antes de entregar um único centavo, o comprador precisa verificar presencialmente o veículo, conferir documentação, identificar o verdadeiro proprietário, consultar registros oficiais e desconfiar de qualquer negociação em que o pagamento seja solicitado para terceiros. Porque, no Marketplace, o carro pode até estar nas fotografias. O problema é descobrir se ele existe fora delas.
E quando a plataforma permite que uma simples publicação alcance potenciais compradores sem que fique claro quem realmente está por trás daquele anúncio, a pergunta deixa de ser apenas policial.
Passa a ser também uma pergunta de responsabilidade digital: quem protege o consumidor antes que o golpe aconteça?



