COLUNA DA HORA, JORNALISTA GÉRI ANDERSON – O ORGULHO CULTURAL DO ARRAIAL FLOR DO MARACUJÁ VIROU UM TRISTE RETRATO DO DESCASO EM RONDÔNIA

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O que já foi símbolo de tradição, organização e orgulho para os rondonienses começa a revelar, mais uma vez, os efeitos da falta de planejamento e da desvalorização da cultura popular

 

Há festas que simplesmente acontecem e há festas que fazem parte da memória de um povo. O Arraial Flor do Maracujá pertence à segunda categoria. Há mais de quatro décadas, quadrilhas, bois-bumbás, brincantes, músicos, artesãos, comerciantes e famílias ajudaram a transformar o evento em uma das maiores vitrines da cultura rondoniense. Em 2024, na 40ª edição, o próprio Governo de Rondônia contabilizou 170 mil visitantes e mais de R$ 1,5 milhão em vendas.

Por isso mesmo, o que se vê na abertura da edição de 2026 provoca muito mais do que frustração: uma verdadeira preocupação. O arraial, que já foi reconhecido como o maior do Norte e chegou a ser apresentado pelo próprio Estado como uma referência cultural regional, começa sua 42ª edição cercado de reclamações sobre problemas de iluminação e fornecimento de energia, além de relatos de que a programação folclórica não teria funcionado como esperado na primeira noite. O cenário, segundo comerciantes e participantes, também foi de público abaixo da expectativa no primeiro fim de semana, o que nunca havia acontecido antes, já que a festa cultural era aguardada com ansiedade por boa parte da população, principalmente a mais tardicional.

E não é difícil entender parte dessa frustração. A festa, tradicionalmente associada aos meses de junho e julho, foi empurrada para setembro esse ano e nos anos anteriores vinha sendo jogada para agosto. Essas mudanças não acontecem por acaso. A organização, nesses últimos seis anos sempre justificava que a nova data seria definida após discussões entre a Sejucel, a União Junina e representantes das agremiações, sob razão de questões técnicas, operacionais e organizacionais.

Mas planejamento não pode olhar apenas para quem organiza. Precisa olhar também para quem trabalha, vende, brinca e frequenta. Para o trabalhador assalariado, seja servidor público ou empregado da iniciativa privada, o meio do mês pode representar um período mais apertado financeiramente. Quando uma festa popular é deslocada para uma época diferente daquela em que o público está acostumado a consumi-la, a organização precisa considerar esse comportamento econômico. Afinal, cultura também é força econômica.

E quem paga a conta dessa falta de público é justamente quem está dentro do arraial tentando ganhar a vida. Comerciantes relatam movimento abaixo do esperado e, em alguns casos, redução de preços de bebidas, comidas e lanches para tentar diminuir prejuízos. Até o parque de diversões, segundo relatos, não teria operado plenamente nos primeiros dias.

É uma ironia difícil de ignorar, pois o Estado anuncia um evento que deveria movimentar a economia criativa, o turismo e o comércio local, mas os próprios trabalhadores envolvidos na festa começam a fazer contas para descobrir como evitar prejuízo.

O Flor do Maracujá não nasceu ontem. É uma história que não merece ser tratada como evento qualquer. Em 2024 completou 40 edições. A história começou décadas atrás, lí ao lado do Ginásio Cláudio Coutinho onde já foi um aeroporto regional no “tempo do bumba” e hoje é o Complexo esportivo Deroche. É uma preciosidade que já atravessou gerações e consolidou o arraial como patrimônio cultural de Rondônia. A legislação estadual reconhece o Flor do Maracujá como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Estado, justamente pela relevância de sua manifestação cultural.

É exatamente por isso que a sensação de abandono incomoda tanto. Quando uma festa dessa dimensão enfrenta sucessivas mudanças de calendário, problemas de estrutura, dificuldades de organização e perda de prestígio popular, não está em jogo apenas um evento de dez dias. Está em jogo a memória cultural de Rondônia. E nesse ponto esse artigo jornalístico não pode ficar restrito ao Governo do Estado.

Também é preciso perguntar onde estão os parlamentares, vereadores, deputados estaduais e demais representantes políticos que discursam sobre a valorização da cultura, mas muitas vezes parecem lembrar dela apenas quando chega a hora de subir ao palco, tirar fotografia ou publicar uma homenagem nas redes sociais.

Cultura não pode ser tratada como decoração de mandato. Não basta liberar recursos, montar estruturas e anunciar uma programação. É preciso acompanhar, fiscalizar, cobrar planejamento e exigir que um patrimônio cultural dessa dimensão seja tratado com a responsabilidade que merece.

O FLOR PRECISA VOLTAR A SER ORGULHO

 

Rondônia não pode aceitar que uma tradição construída por gerações seja lentamente desidratada pela falta de prioridade. O Flor do Maracujá já provou que tem força. Já provou que consegue reunir multidões, gerar renda, revelar artistas, movimentar comerciantes e preservar manifestações que fazem parte da identidade de Rondônia. Em 2024, foram 170 mil visitantes em dez dias de festa.

O problema, portanto, não é falta de público potencial. É a necessidade de devolver ao evento a importância que ele conquistou. O povo rondoniense não precisa que seus governantes façam favor ao Flor do Maracujá. Precisa que entendam que cultura também é patrimônio, economia, identidade e pertencimento.

O que hoje deveria ser uma celebração da história de Rondônia corre o risco de se transformar em símbolo de uma história que está sendo deixada de lado. E quando o maior arraial do estado começa a provocar mais reclamações do que encantamento, alguma coisa está muito errada.

O Flor do Maracujá não pode morrer aos poucos por falta de cuidado. Rondônia merece uma festa à altura da sua própria história.

 

COLUNA DA HORA – JORNALISTA GÉRI ANDERSON 

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