COLUNA DA HORA, POR AGATHA MESQUITA – Mês dos Namorados em Tempos Modernos: Entre Liberdade e Novas Formas de Amar

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Por AGATHA MESQUITA*

O amor sempre encontrou formas de atravessar o tempo. No decorrer da história, ele esteve presente nas cartas escritas à mão, nos encontros marcados, nas músicas dedicadas em segredo, cada linguagem sendo expressa à sua forma. Neste Mês dos Namorados, milhões de pessoas celebraram esse sentimento que continua inspirando promessas, sonhos compartilhados e a esperança, para alguns, de encontrar alguém com quem dividir o tempo e o espaço.

Mas, embora o amor permaneça sendo um dos sentimentos mais universais da experiência humana, a maneira de se relacionar tem mudado significativamente. Em uma sociedade cada vez mais conectada, onde sentimentos, desejos e experiências são discutidos e expostos abertamente, os relacionamentos contemporâneos se tornaram mais complexos, diversos e, muitas vezes, desafiadores. Entre aqueles que carregam as marcas de decepções passadas e os que se entregam intensamente a novas paixões, surgem questionamentos sobre compromisso, liberdade, exclusividade e as diferentes formas de construir vínculos afetivos.

Se antes falar sobre sexualidade, desejo e modelos de relacionamento era considerado um tabu, hoje o assunto ocupa espaço em debates públicos, produções culturais e pesquisas acadêmicas. A mudança acompanha uma sociedade que se tornou mais aberta para discutir sentimentos, limites emocionais e expectativas afetivas.

Nesse cenário, muitas pessoas parecem oscilar entre dois extremos: de um lado, aquelas que carregam experiências traumáticas, decepções amorosas e receios que dificultam a construção de novos vínculos; de outro, pessoas que mergulham intensamente em relações recentes, projetando rapidamente planos a longo prazo. O que antes era visto como uma trajetória previsível para o amor tornou-se um terreno de múltiplas possibilidades.

Parte dessa transformação está relacionada ao protagonismo crescente das mulheres na construção de suas relações afetivas. Mais independentes financeira e emocionalmente, elas demonstram cada vez mais clareza sobre aquilo que desejam — e, principalmente, sobre aquilo que não estão mais dispostas a aceitar. Relações marcadas por desigualdade emocional, falta de respeito, ausência de reciprocidade ou sobrecarga afetiva passaram a ser questionadas com mais frequência, e menos toleradas.

Estudos apontam que essa mudança também está ligada à conscientização sobre o chamado “trabalho emocional” dentro dos relacionamentos, ou seja, a responsabilidade de administrar conflitos, acolher emoções e sustentar a dinâmica afetiva do casal, tarefa que historicamente recaiu de forma desproporcional sobre as mulheres.

Monogamia, Não Monogamia e Poliamor: entendendo as diferenças

 

À medida que os debates sobre relacionamentos se ampliam, modelos afetivos antes pouco conhecidos passaram a ganhar maior visibilidade.

A monogamia continua sendo o modelo padrão e predominante na sociedade em que vivemos. Nela, duas pessoas estabelecem um compromisso afetivo e sexual exclusivo, construindo uma relação baseada na reciprocidade e na exclusividade romântica. O chamado “Normal”.

Já a não-monogamia consensual funciona de maneira diferente. Trata-se de um modelo em que todos os envolvidos concordam, de forma transparente e consciente, que uma ou mais pessoas possam desenvolver vínculos afetivos ou sexuais com terceiros. O elemento central é o consentimento, o diálogo e a definição clara de limites entre as partes. Estudos e debates sobre o tema levantam a questão de que esse formato difere completamente da tão temida infidelidade, uma vez que, há transparência e espera-se respeito nos acordos entre os envolvidos.

Ainda dentro desse universo da não-monogamia existe o poliamor, uma modalidade específica da não monogamia. No poliamor, uma pessoa pode manter simultaneamente mais de uma relação amorosa, desde que todos os participantes tenham consciência e concordem com a dinâmica estabelecida. Diferentemente dos relacionamentos abertos focados apenas em experiências sexuais externas, o poliamor admite a construção de múltiplos vínculos afetivos e profundos.

Embora essas formas de se relacionar ainda causem estranhamento social, pesquisas recentes indicam que pessoas que praticam a não monogamia consensual podem apresentar níveis de satisfação afetiva e sexual semelhantes aos observados em relacionamentos monogâmicos. O fator determinante para a qualidade da relação parece estar menos na estrutura escolhida e mais na comunicação, confiança e alinhamento de expectativas entre os envolvidos. Afinal, cabe a cada um saber o que lhe convém para o momento em que se está vivendo, desde que haja respeito e responsabilidade afetiva com a outra parte, ou outras partes envolvidas.

Por que algumas pessoas estão escolhendo novas formas de relacionamento?

 

A psicologia comportamental, bem como alguns estudos sobre relacionamentos apontam que não existe uma explicação única para esse fenômeno. As motivações são diversas e envolvem aspectos individuais, sociais, culturais e por vezes, locais.

Muitas pessoas que optam pela não monogamia relatam uma maior valorização da autonomia pessoal, da liberdade de escolha e da possibilidade de construir vínculos sem seguir modelos tradicionais considerados obrigatórios pela sociedade. Em alguns ambientes mais tradicionais, ainda nos tempos de hoje, mulheres crescem sendo incentivadas a ter um bom casamento, ser boa gestora do lar e boa mãe, já a valorização do conhecimento e autonomia financeira ficam em segundo plano. É possível perceber, por parte do público que adere a esta forma de se relacionar, que eles enxergam a entrega dessa afetividade como um recurso que não precisa ser limitado a apenas uma pessoa. Também aparecem fatores relacionados à autenticidade, ao crescimento pessoal e à busca por relações que atendam diferentes necessidades emocionais ao longo da vida.

Estudos mostram que muitos adeptos da não monogamia não escolhem esse modelo por insatisfação com seus parceiros, mas porque acreditam que essa configuração corresponde melhor aos seus valores e à forma como compreendem os relacionamentos, evitando assim padrões negativos, normalizados e erroneamente romantizados nos relacionamentos monogâmicos atuais como: mentiras, omissões, manipulações, traições e afins.

Ao mesmo tempo, nenhum formato de relacionamento funciona como solução automática para problemas afetivos – se você não sabe lidar de forma responsável com as emoções de outra pessoa, ou outras pessoas. Seja na monogamia ou na não-monogamia, desafios como ciúmes, insegurança, comunicação falha e expectativas desalinhadas continuam existindo. O sucesso de qualquer relação depende da maturidade emocional de seus participantes, da capacidade de estabelecer acordos claros e respeitosos e da comunicação.

O amor continua sendo o ponto de encontro

 

Em meio a tantas mudanças, talvez a maior transformação não esteja nas formas de relacionamento, mas na liberdade crescente de escolher como expressar tal amor.

O amor contemporâneo já não cabe em definições. Ele pode ser vivido através da monogamia tradicional, do poliamor, dos relacionamentos abertos ou de qualquer outra configuração construída com honestidade, consentimento e respeito. Mais do que seguir modelos pré-estabelecidos, as pessoas buscam relações que façam sentido para suas histórias, valores e expectativas.

No Dia e no Mês dos Namorados, talvez a reflexão mais importante seja compreender que não existe uma fórmula universal para a felicidade afetiva. Existem sentimentos, acordos e pessoas que estão dispostas (ou não) a viver e dividir experiências com alguém especial.

E, no fim das contas, toda forma de amor é válida quando nasce do respeito, da sinceridade e do cuidado mútuo. Porque amar não é apenas escolher alguém — ou algumas pessoas — para compartilhar a vida. E sim, reconhecer a humanidade do outro, o universo que ele – ou ela- escolheu viver, acolher suas diferenças e construir, juntos, um espaço seguro onde todos possam existir de forma livre e verdadeira.

*A autora é escritora de artigos sobre relacionamentos, mora em Porto Velho, e é Servidora Pública

 

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