{"id":47999,"date":"2026-09-30T12:21:15","date_gmt":"2026-09-30T15:21:15","guid":{"rendered":"https:\/\/colunadahora.com.br\/?p=47999"},"modified":"2026-09-30T12:21:15","modified_gmt":"2026-09-30T15:21:15","slug":"coluna-da-hora-jornalista-geri-anderson-energisa-prende-mais-de-100-pessoas-em-rondonia-mas-por-tras-do-gato-ha-tambem-pais-de-familia-e-trabalhadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/colunadahora.com.br\/?p=47999","title":{"rendered":"COLUNA DA HORA, JORNALISTA G\u00c9RI ANDERSON &#8211; ENERGISA PRENDE MAIS DE 100 PESSOAS EM ROND\u00d4NIA, MAS POR TR\u00c1S DO \u201cGATO\u201d, H\u00c1 TAMB\u00c9M PAIS DE FAM\u00cdLIA E TRABALHADORES"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A not\u00edcia de que mais de 100 pessoas foram presas em Rond\u00f4nia, somente em 2026, por suspeita de furto de energia el\u00e9trica chama aten\u00e7\u00e3o pelos n\u00fameros \u2014 mas tamb\u00e9m levanta uma pergunta que vai al\u00e9m das estat\u00edsticas: quem s\u00e3o essas pessoas que est\u00e3o sendo algemadas e levadas pela pol\u00edcia?<\/p>\n<p>S\u00e3o todos criminosos habituais? Pessoas envolvidas com organiza\u00e7\u00f5es criminosas? Reincidentes?<\/p>\n<p>N\u00e3o necessariamente. Entre as ocorr\u00eancias divulgadas recentemente est\u00e3o resid\u00eancias, pequenos estabelecimentos comerciais, oficinas, bares, sorveterias e empresas, al\u00e9m de empreendimentos de maior porte. Em uma opera\u00e7\u00e3o realizada em setembro, por exemplo, duas pessoas foram presas em im\u00f3veis residenciais em S\u00e3o Miguel do Guapor\u00e9.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso fazer uma distin\u00e7\u00e3o importante, pois o furto de energia \u00e9 crime e deve ser apurado pelas autoridades competentes. Mas uma pris\u00e3o em flagrante por um delito de natureza patrimonial n\u00e3o transforma automaticamente aquela pessoa em criminoso habitual, perigoso ou integrante do submundo do crime.<\/p>\n<p>Em muitos casos, estamos falando de pessoas comuns. S\u00e3o pais e m\u00e3es de fam\u00edlia, trabalhadores, comerciantes e cidad\u00e3os que enfrentam dificuldades para manter as contas em dia. E \u00e9 justamente a\u00ed que come\u00e7a uma discuss\u00e3o que precisa ser feita com mais humanidade.<\/p>\n<p><strong>A conta chega. E, para muita gente, ela chega pesada.<\/strong><\/p>\n<p>O consumidor que recebe uma conta de energia que n\u00e3o consegue pagar n\u00e3o est\u00e1 necessariamente diante de uma escolha entre pagar ou furtar. Muitas vezes est\u00e1 diante de uma situa\u00e7\u00e3o financeira dif\u00edcil, com aluguel, alimenta\u00e7\u00e3o, medicamentos, escola, impostos e outras despesas disputando o mesmo dinheiro.<\/p>\n<p>A energia el\u00e9trica, por sua vez, n\u00e3o \u00e9 um luxo. \u00c9 um servi\u00e7o essencial.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria ANEEL estabelece regras espec\u00edficas para proteger o consumidor inadimplente. A distribuidora deve comunicar previamente o corte e <strong>n\u00e3o pode suspender o fornecimento por falta de pagamento \u00e0s sextas-feiras, s\u00e1bados, domingos, feriados ou v\u00e9speras de feriado<\/strong>.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m existe previs\u00e3o de negocia\u00e7\u00e3o de d\u00e9bitos. Segundo a ANEEL, o consumidor pode propor parcelamento \u00e0 distribuidora; para consumidores residenciais classificados como baixa renda, h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que o parcelamento \u00e9 obrigat\u00f3rio quando solicitado.<\/p>\n<p>Por isso, quando consumidores relatam dificuldades para negociar d\u00e9bitos, condi\u00e7\u00f5es consideradas pesadas ou problemas no atendimento, a discuss\u00e3o n\u00e3o deveria terminar simplesmente com a palavra \u201cgato\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso perguntar tamb\u00e9m: o consumidor teve oportunidade real de negociar? Foi informado corretamente? Recebeu atendimento adequado? O procedimento de corte respeitou todas as regras?<\/p>\n<p><strong>O problema n\u00e3o pode ser tratado apenas com pol\u00edcia<\/strong><\/p>\n<p>A Energisa tem o direito de combater liga\u00e7\u00f5es clandestinas e cobrar pelo consumo de energia. A fiscaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1ria para preservar a seguran\u00e7a da rede e evitar preju\u00edzos aos demais consumidores. Mas existe uma diferen\u00e7a entre combater fraude e transformar a dificuldade econ\u00f4mica do cidad\u00e3o em uma quest\u00e3o exclusivamente policial.<\/p>\n<p>Em setembro, por exemplo, a pr\u00f3pria divulga\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es informou que 12 pessoas haviam sido presas no estado e que as fiscaliza\u00e7\u00f5es encontraram irregularidades tanto em empresas quanto em im\u00f3veis residenciais. No acumulado do ano, o n\u00famero passou de 100 pris\u00f5es.<\/p>\n<p>O n\u00famero pode ser apresentado como resultado de combate \u00e0s perdas. Mas tamb\u00e9m pode ser enxergado por outro \u00e2ngulo. Mais de uma centena de fam\u00edlias, trabalhadores e respons\u00e1veis por neg\u00f3cios passaram pela porta de uma delegacia em raz\u00e3o de uma d\u00edvida ou irregularidade relacionada ao fornecimento de energia. E essa realidade merece ser discutida sem romantizar o furto, mas tamb\u00e9m sem desumanizar quem est\u00e1 do outro lado da ocorr\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o s\u00e3o \u201cbandidos\u201d por defini\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma diferen\u00e7a enorme entre algu\u00e9m que comete um delito patrimonial e a imagem de um criminoso reincidente, violento ou integrante de uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa.<\/p>\n<p>Uma pessoa presa por uma ocorr\u00eancia de furto de energia n\u00e3o deve ser automaticamente rotulada como bandido, muito menos ter sua vida inteira definida por uma ocorr\u00eancia policial. Cada caso precisa ser individualizado, investigado e submetido ao devido processo legal.<\/p>\n<p>O que tamb\u00e9m precisa ser discutido \u00e9 se a resposta para quem est\u00e1 endividado deve ser exclusivamente corte, cobran\u00e7a, fiscaliza\u00e7\u00e3o, pol\u00edcia e pris\u00e3o, ou se tamb\u00e9m deve existir uma pol\u00edtica de negocia\u00e7\u00e3o capaz de impedir que uma d\u00edvida de energia se transforme em um problema social, familiar e criminal.<\/p>\n<p><strong>Energia \u00e9 servi\u00e7o essencial. O consumidor tamb\u00e9m merece respeito.<\/strong><\/p>\n<p>A Energisa tem suas responsabilidades. O consumidor tem as suas. E o Estado tem o dever de fiscalizar os dois lados dessa rela\u00e7\u00e3o. Se h\u00e1 furto comprovado, que a lei seja aplicada.<\/p>\n<p>Mas, se h\u00e1 consumidor endividado, que tamb\u00e9m exista negocia\u00e7\u00e3o justa, transpar\u00eancia, informa\u00e7\u00e3o, respeito e tratamento digno. Porque atr\u00e1s de cada n\u00famero existe uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>E quando uma empresa anuncia com orgulho que mais de 100 pessoas foram presas, talvez seja necess\u00e1rio olhar para al\u00e9m da estat\u00edstica.<\/p>\n<p>Porque combater o furto de energia \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o. Mas tratar pessoas comuns como se fossem criminosos habituais, sem considerar a realidade social e econ\u00f4mica de cada caso, \u00e9 outra discuss\u00e3o \u2014 e essa precisa ser feita.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; A not\u00edcia de que mais de 100 pessoas foram presas em Rond\u00f4nia, somente em 2026, por suspeita de furto de energia el\u00e9trica chama aten\u00e7\u00e3o pelos n\u00fameros \u2014 mas tamb\u00e9m levanta uma pergunta que vai al\u00e9m das estat\u00edsticas: quem s\u00e3o essas pessoas que est\u00e3o sendo algemadas e levadas pela pol\u00edcia? S\u00e3o todos criminosos habituais? 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