
O secretário do Sintero – Sindicato dos Trabalhadores em Educação no Estado de Rondônia -, José Augusto Neto, foi detido na tarde da última segunda-feira, após quebrar uma medida protetiva garantida pela Lei Maria da Penha. O membro da diretoria da instituição havia ameaçado, no ano passado, uma colega, que também faz parte da diretoria, após ela questionar a prestação de contas do sindicato do ano de 2020. O mesmo se irritou, a ameaçou moralmente, e como vingança, compartilhou video íntimo que havia gravado com a vítima durante um relacionamento.
Como o delegado não pode conceder fiança nesse caso, mesmo que a pena seja baixa, o secretário continua preso, aguardando a audiência de custódia para uma decisão judiciária. Se o juiz entender que houve risco grave à vítima ou que o agressor pode repetir a conduta, ele pode negar a fiança e decretar prisão preventiva de José Augusto.
COMO ACONTECEU
A secretária de Gênero e Etnia do Sintero, Rosa Negra, denunciou em 2024 as represálias após ter sido vítima de assédio sexual pelo professor e secretário de Organização do sindicato, José Augusto Neto. A ativista das causas negras, que também integra o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial e a Coordenação nacional do Movimento Negro Unificado (MNU), teve um relacionamento com o dirigente e durante um momento íntimo ele teria gravado um vídeo sem o consentimento dela.
B.O.
A partir disso, o dirigente teria compartilhado o vídeo com uma outra colega do sindicato, segundo consta no depoimento da vítima registrado no Boletim de Ocorrência, documento ao qual o Portal COLUNA DA HORA teve acesso. “Quando ele falou com ela que estava saindo comigo, ela pediu uma prova porque era uma coisa que estava no privado. Ele preparou um cenário e mandou o vídeo para ela, que mostrou para outra pessoa que veio conversar comigo e disse que tinham um vídeo íntimo meu”, desabafa.
NÃO PRESTOU CONTA DA ELEIÇÃO
A secretária alega que se sentiu ameaçada por José Augusto após cobrar a prestação de contas de uma campanha eleitoral de 2020, no qual eles trabalharam juntos. Em resposta, ele teria dito que tinha “coisas guardadas”.
DELEGACIA DA MULHER
O caso foi registrado na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher em Porto Velho (Rondônia) em agosto do ano passado (2024) e no mês de outubro, Rosa teve o pedido de medida protetiva aceito pelo 2º Juizado de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher. “Tem sido muito difícil. Eu não durmo. Já chorei muito. Está sendo um pesadelo”, relatou na época.
DIRETORES PARTEM PARA BRIGA INTERNA
Em meio à denúncia de assédio, Rosa relata ter sido submetida a represálias dentro do sindicato, onde os envolvidos ainda trabalham, como a divulgação de uma nota interna de repúdio em que o Sintero alega “atitudes inaceitáveis” da titular da pasta de Gênero e Etnia no ambiente de trabalho, como agressões verbais e calúnias contra diretores do sindicato.
MAIS DESENTENDIMENTOS
A nota, assinada por 08 diretores do sindicato, aponta que a secretária teria negligenciado casos de violência contra as mulheres, principalmente mulheres brancas e/ou pardas do sindicato. Em um trecho, o documento cita que a secretária “atua com discurso preconceituoso de segregação, atacando verbalmente e apelidando as diretoras de ‘cor branca’”.
MOVIMENTOS SINDICAIS
Em resposta ao Sintero, integrantes de movimentos sindicais, negro e dos direitos das mulheres de Rondônia e Porto Velho solicitaram um pedido de ajuste de conduta e repúdio à postura de dirigentes do Sintero contra mulheres do sindicato, incluindo a secretária Rosa Negra.
AJUSTE DE CONDUTA
“Em reunião da executiva, a Secretária de Gênero e Etnia comunicou a necessidade da direção fazer encaminhamentos acerca de tantas denúncias de violência de gênero e foi terrivelmente agredida por diretores […] chamada de ‘rainha da cocada preta, que chamava todos de machistas’ e que seria necessário que os homens fossem chamados a cada denúncia”, relata um trecho do documento.
PEDIDO-DE-AJUSTE-DE-CONDUTAS-E-PROVIDENCIAS-DENUNCIAS-DO-SINTEROBaixar
A vítima relata que a Imprensa na época questionou o Sintero sobre o recebimento das denúncias de assédio e quais medidas foram tomadas sobre as possíveis represálias. O sindicato só respondeu que encaminhou solicitação para a Secretaria-Geral “para apuração da presidência”, mas jamais mandou resposta em retorno aos questionamentos. O espaço do PORTAL COLUNA DA HORA segue aberto em caso de manifestação.
O SISTEMA É FALHO
Para além das denúncias, Rosa também expõe as fragilidades no sistema de justiça para mulheres vítimas de violência. “A maior exposição foi eu ser gravada e agora a gente precisa dar publicidade para que outras mulheres também tenham coragem de fazer isso. É preciso muita coragem para denunciar o agressor”, pontua.

FONTE: COLUNA DA HORA