O que deveria ser uma etapa de celebração do esporte escolar de Rondônia terminou cercado por denúncias graves de desorganização, interferência indevida, falhas técnicas e riscos à integridade física dos estudantes. A etapa de Taekwondo dos Jogos Escolares de Rondônia (JOER), realizada nesta semana, é alvo de um manifesto de repúdio da Federação de Taekwondo do Estado de Rondônia (FETRON), que cobra explicações da Secretaria de Estado da Educação (SEDUC) e pede investigação dos órgãos de controle.
Segundo o documento, a SEDUC teria realizado a competição sem observar procedimentos técnicos indispensáveis à modalidade e, mais grave, sem promover seletivas estaduais adequadas para definir os representantes de Rondônia. A entidade afirma ainda que alertas feitos previamente à equipe técnica da secretaria teriam sido ignorados.
O caso ganhou contornos ainda mais preocupantes após a lesão grave de um jovem atleta durante uma luta. Conforme o relato apresentado pela arbitragem, a estrutura do tatame não teria respeitado medidas e áreas de escape consideradas necessárias para a segurança dos competidores. O atleta sofreu rompimento de ligamentos no joelho e precisou deixar a competição.
Para a federação, o fato não pode ser tratado como um simples acidente esportivo. A denúncia sustenta que a combinação entre estrutura inadequada, ausência de critérios técnicos e uma equipe de arbitragem que, segundo o documento, não possuía qualificação compatível com a responsabilidade assumida teria criado um ambiente de risco para os estudantes.
ATLETAS BARRADOS APÓS VIAJAREM PARA COMPETIR
Outro ponto levantado no manifesto envolve a montagem das chaves e a seleção dos atletas. A denúncia afirma que a própria SEDUC teria encaminhado a delegação de Porto Velho para a fase final com mais de um atleta inscrito na mesma categoria e no mesmo local, algo que deveria ter sido identificado antes da viagem e da realização das disputas.
O problema teria provocado situações consideradas absurdas pela federação. Atletas que viajaram, treinaram e conquistaram suas vagas acabaram impedidos de competir. Entre os casos citados está o de um atleta da capital apontado como campeão estadual e recém-consagrado campeão brasileiro, que teria sido impedido de entrar no tatame sob a justificativa de que sua categoria já estaria preenchida.
A situação levanta uma questão importante, pois se o JOER deveria premiar o mérito esportivo e revelar talentos, como um campeão brasileiro pode viajar para representar sua escola e ser impedido de competir por uma falha administrativa na montagem das chaves?
LICITAÇÃO TAMBÉM ENTRA NO RADAR DA DENÚNCIA
A FETRON também questiona a contratação dos serviços de arbitragem e aponta possíveis irregularidades nos documentos apresentados para comprovação de capacidade técnica. Segundo o manifesto, o edital exigiria comprovação de capacidade técnica por meio de entidade reconhecida na modalidade. A federação afirma que documentos apresentados por empresas ou indivíduos teriam sido utilizados como supostos atestados técnicos sem a devida autorização ou respaldo da entidade representativa do Taekwondo em Rondônia.
A denúncia sustenta que o setor responsável teria sido informado sobre a necessidade de documentos de capacidade técnica expedido pela CBTKD e FETRON, mas, ainda assim, não foi observado no processo de contratação. São acusações que, se confirmadas, ultrapassam os limites de uma falha administrativa e podem exigir apuração sobre a regularidade do processo de contratação, eventual responsabilidade de agentes públicos e a validade dos documentos apresentados.
MP E TRIBUNAL DE CONTAS SÃO ACIONADOS
Diante da gravidade das acusações, a federação pede a atuação do Ministério Público de Rondônia (MPRO) e do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RO). Entre as medidas solicitadas estão a abertura de procedimento para apurar a conduta dos responsáveis pela organização da etapa, a análise dos documentos apresentados na contratação da arbitragem e uma auditoria no processo licitatório e no contrato.
A entidade também pede que sejam investigadas eventuais responsabilidades pelos danos físicos e morais decorrentes da lesão sofrida pelo estudante. O evento levanta questionamentos sobre a organização e a forma como o maior evento esportivo escolar de Rondônia está sendo organizado. O JOER envolve estudantes, famílias, professores, escolas e recursos públicos há dezenas de anos em Rondônia Não há espaço, portanto, para improviso quando o que está em jogo é a segurança de adolescentes e jovens.
Se as denúncias forem confirmadas, será necessário identificar quem fiscaliza ou quem deveria fiscalizar o esporte escolar em Rondônia. A FETRON encerra o manifesto defendendo respeito às regras, legalidade e responsabilidade. E cobra que o esporte escolar deixe de ser tratado como uma operação improvisada. Porque, no tatame, uma falha administrativa pode custar muito mais do que uma medalha. Pode custar a saúde e o futuro de um jovem atleta.
Fonte: Fetron
Texto: Jornalista Géri Anderson